A personalidade influencia a maneira como as pessoas interagem com a inteligência artificial, segundo análise de Paul Jones, vice-diretor de Educação e Experiência Estudantil da Aston Business School, no Reino Unido. Para discutir essa relação, o autor reuniu pesquisas recentes sobre personalização de sistemas e comportamento dos usuários.
Um estudo publicado em 2026 na revista “Communications Psychology” mostrou que participantes extrovertidos tiveram maior afinidade com uma IA que reproduzia características de extroversão. O mesmo não ocorreu entre os participantes introvertidos: eles não demonstraram preferência equivalente por uma IA que reproduzisse a introversão, o que os pesquisadores consideram estar relacionado à maior dificuldade de expressar esse perfil numa conversa curta por texto. Em outro experimento do mesmo estudo, a IA reproduziu os traços de personalidade de cada pessoa segundo o modelo dos Cinco Grandes. Nesse caso, os participantes demonstraram maior afinidade com a versão que refletia suas próprias características do que com aquela que apresentava traços opostos.
Utilizado nessa pesquisa, o modelo dos Cinco Grandes é uma das principais abordagens para estudar personalidade. Ele descreve tendências relativamente estáveis relacionadas, entre outros aspectos, à sociabilidade, à organização, à estabilidade emocional e à abertura a novas experiências.
Em outra pesquisa, participantes passaram a descrever a própria personalidade de maneira mais próxima dos traços apresentados pela IA após conversarem com chatbots. Quanto mais longa a conversa, maior foi essa aproximação. Esse alinhamento também esteve associado a uma avaliação mais positiva da interação. Os autores ressaltam, porém, que o estudo examinou um efeito de curto prazo e não permite concluir que essas mudanças persistam.
O artigo de Jones também aborda uma pesquisa publicada na “Science” em 2026 sobre a chamada IA bajuladora, que tende a concordar excessivamente com o usuário. O estudo mostrou que esse comportamento aumentou, nos experimentos, a percepção dos participantes de que estavam certos e reduziu a intenção de reparar relações após conflitos.
Para Jones, a personalização oferece formas de adaptar a interação a diferentes perfis. Usuários mais extrovertidos, por exemplo, parecem responder melhor a estilos de comunicação igualmente expansivos. Já pessoas menos inclinadas à exposição imediata encontram nos chatbots um ambiente em que podem elaborar ideias sem algumas das pressões presentes na interação social direta.
Os resultados, no entanto, também trazem uma questão sobre os limites dessa adaptação. Ajustar o comportamento da IA às características do usuário favorece a identificação com o sistema, mas pesquisas recentes indicam que a influência também ocorre no sentido inverso. A maneira como a IA se apresenta pode afetar, ao menos no curto prazo, a forma como a pessoa avalia a própria personalidade ou interpreta uma situação.
